Ética em Investigação Qualitativa: uma reflexão…

Ética em Investigação Qualitativa: uma reflexão…

António Moreira
Research Centre on Didactics and Technology in the Education of Trainers (CIDTFF), Education and Psychology Departament, Aveiro University, Portugal (moreira@ua.pt)

Enquanto investigador e docente de unidades curriculares de metodologia de investigação nos domínios das Ciências Sociais e Humanidades, nomeadamente nas Ciências da Educação, na Supervisão da Formação de Professores, na Didática de Línguas, nas Tecnologias em contexto educativo, etc., o mote para a presente reflexão decorre dos aspetos éticos que relevam do processo investigativo, e que se constituem enquanto elementos centrais a qualquer estudo, seja de cariz quantitativo ou qualitativo.

Por ser mais vulnerável à subjetividade, a investigação qualitativa serve de trampolim para a reflexão.

As autorizações e/ou consentimentos para proceder a observações de comportamentos humanos, seja isoladamente, em contextos complexos de socialização ou em outros de natureza diferente, o acesso a documentação pessoal, privada, sensível, reservada, bem como os locais onde se pretende aceder a essas observações e contextos, implicam que as mesmas sejam explícitas e inatacáveis do ponto de vista jurídico, moral e ético. Por outro lado, o que relatamos dos comportamentos observados deve ser sempre seguido do escrutínio de quem foi observado. É imprescindível que o que se relata seja objetivamente validado pelo relatado em termos de objetividade, correção interpretativa e relevância para o estudo, incluindo aspetos que possam colocar em causa a integridade pessoal, profissional ou pública do informante.

É dever ético do investigador procurar garantir que os pontos de vista dos nossos entrevistados, participantes e/ou parceiros de investigação se revejam nas asserções produzidas em função dessas mesmas visões alternativas, quando devidamente enquadradas nos preceitos e objetivos do estudo.

Isto inclui a autorização, inclusive, de se utilizar as palavras dos nossos informantes, por exemplo transcritas de protocolos de videogravação ou de outro tipo de registo (nomeadamente notas de campo que relatam observações), que garantam a veracidade e fidelidade do registo, da interpetação atribuída e sua relação contextual e cotextual, prevenindo distorções não autorizadas da nossa visão do observado.

É aqui que entra a necessidade de se irem afinando, progressivamente, as várias fases de progresso do relato do estudo, em função não só da sua finalidade como do público ou públicos a que se dirige. Uma apresentação oral, necessariamente sumária, de um trabalho que foi lido com atenção especial e que se encontra, no momento, destinado a defesa perante um painel de especialistas numa prova pública para obtenção de um grau, não será feita no mesmo tom ou com o mesmo grau de profundidade, se se tratar de um contexto de divulgação pública do mesmo trabalho, por exemplo numa conferência, num peródico da especialidade, num póster, num texto de divulgação pública de ciência. Todos estes contextos, dentre outros, têm sempre implicações éticas, sejam de natureza académica e científica, como de confidencialidade e de proteção de dados. Tal não quer, contudo, dizer que o investigador fique “de mãos atadas” relativamente ao direito que lhe assiste de tornar público o seu trabalho – aliás, esse é o seu dever deontológico.

O que é essencial é garantir que todos os envolvidos no estudo se reveem nos dados, interpretações e resultados relatados, e que os mesmos não são invasivos nem reveladores de aspetos expúrios ou que denigram a sua imagem. Todos os princípios que subjazem a qualquer estudo que envolva outras pessoas devem constituir uma sólida base de mútuo e informado acordo prévio ao início da sua realização.

E este acordo deve manter-se vivo e fiel, com verificações regulares, por parte dos envolvidos, de que tais princípios se mantêm ao longo de todo o processo de investigação, incluindo a decisão de se tornar público o seu conhecimento.

Como acontece com a investigação quantitativa, de cariz experimental, positivista, que se socorre de modelos estatísticos complexos, quantas vezes não se assiste ao “martelar” de dados até que deles se retire mais o que se pretende fazer crer do que o que a realidade evidencia. Por outro lado, como acontece na investigação qualitativa, de cariz interpretativo, mais suscetível a olhares enviesados pela subjetividade do investigador, quantas vezes não se assiste à “imposição” de ideias préconcebidas à observação despojada de ideário, distanciada e o mais objetiva possível. Os riscos estão em todo o lado, seja no SPSS ou no webQDA, no tratamento de dados quantitativos, qualitativos ou mesmo mistos, e os investigadores têm que se manter alerta, evitando atalhar caminhos, procedimentos, métodos e tratamento dos dados, somente porque têm que cumprir um prazo, porque se saturaram do que se encontram a investigar, ou porque não querem ceder à evidência de que o que se encontram a estudar, ou o modo como o estão a fazer, não irá conduzir a nenhum desenlace produtivo, mesmo que pouco simpático para o investigador.

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