webQDA na revisão de literatura sobre metodologias de ergonomia no contexto do ambiente construído

GODOI e SILVA, Katia Alexandra; Doutora; Unigran Capital (katigodoi@gmail.com)
VERAS, Heloisa Andrea Leão; Graduanda; Unigran Capital (ha-veras@bol.com.br)

O objetivo deste estudo reside em analisar as metodologias de ergonomia utilizadas no ambiente construído. Para atingir tal objetivo, optamos pela abordagem qualitativa de pesquisa, a partir da utilização do software webQDA no levantamento bibliográfico. Os resultados demonstram uma análise pertinente a oito metodologias.

 

Introdução

Design é uma atividade que envolve idealização, criação, desenvolvimento, configuração e concepção de ambientes. Quando associado à ergonomia, busca a satisfação de necessidades físicas e cognitivas que venham a acrescentar qualidade de vida aos usuários. Preocupa-se com aspectos tridimensionais, visuais, táteis, com a usabilidade e funcionalidade.

Nesta pesquisa, o objetivo é discutir, mais especificamente, as metodologias da Ergonomia do Ambiente Construído, que podem ser utilizadas e estudadas no Design de Interiores.

O Design de Interiores é uma área em constante crescimento e que passou por mudanças significativas, nos últimos 40 anos, estabelecendo-se como uma profissão reconhecida e recentemente regulamentada, por meio da Lei 13.369, de 12 de dezembro de 2016 (BRASIL, 2016).

De acordo com a referida lei, compete ao designer de interiores, entre outras atribuições: estudar, planejar e projetar ambientes internos existentes ou preconfigurados, conforme os objetivos e as necessidades do cliente ou usuário; planejando e projetando o uso e a ocupação dos espaços, de modo a otimizar o conforto, a estética,  saúde e  segurança, de acordo com as normas técnicas de acessibilidade,  ergonomia e  confortos luminoso, térmico e acústico, devidamente homologadas pelos órgãos competentes (BRASIL, 2016).

Observa-se, assim, que o Design de Interiores evoluiu de uma profissão preocupada com a ornamentação, a uma abordagem baseada na concepção do comportamento humano. Nesse sentido e, principalmente, a partir do reconhecimento, a profissão de designer de interiores exibe características e fixa princípios que devem ser observados no exercício profissional. Essas características e princípios incluem fronteiras de conhecimento e habilidades, conduta ética, responsabilidades social e ambiental (GUERIN; THOMPSON, 2008). Assim como estudos mais aprofundados sobre, por exemplo, a Ergonomia do Ambiente Construído.

Moraes (2004) chama a atenção para as atribuições próprias da Ergonomia que se ocupa não só da relação do homem com o objeto, mas também do homem com o ambiente em que está inserido. Nesse sentido, evidencia-se a necessidade dos conhecimentos da Ergonomia nos projetos de Design de Interiores visto que o ambiente arquitetônico é o local onde o usuário desenvolve suas tarefas.

Mont´Alvão (2011) argumenta que a ergonomia do ambiente construído extrapola as questões puramente arquitetônicas, dando enfoque às questões da “[…] orientabilidade, da acessibilidade, do design de móveis, otimização gráfica ou projeto de iluminação. A área entende que a Arquitetura e o Design sabem e podem fazer mais por esses espaços” (p. 16).

A partir do que foi apresentado, faz-se necessário um olhar crítico sobre as questões inerentes à Ergonomia do Ambiente Construído, voltadas às metodologias, utilizadas nessa área. Mont´Alvão (2011) explica que a área do Design sabe e pode fazer mais pelos espaços internos. Então, surgem as indagações: Como fazer? Quais metodologias podem ser utilizadas e estudadas no Design de Interiores?

Mont´Alvão (2011) também questiona se a análise do ambiente construído, por meio de questionários, entrevistas, escalas de avaliação, é de fato suficiente. A autora traz algumas indagações: “Como obter de forma mais objetiva (ou menos subjetiva) as impressões dos usuários sobre o ambiente, a sua compreensão e leitura do espaço?” (p. 17).

A par desses questionamentos, sabemos que a Ergonomia do Ambiente Construído faz uso de metodologias próprias. Os estudos dessa área são recentes, conforme afirmam Ribeiro e Mont’Alvão (2004), e algumas metodologias se propuseram a avançar um pouco mais nessa questão, as quais, para o recorte desta pesquisa, serão discutidas, brevemente, a seguir.

 

O percurso metodológico – um levantamento bibliográfico

Antes mesmo de passarmos para as metodologias utilizadas nos estudos de Ergonomia no Ambiente Construído, vale explicar o percurso metodológico da pesquisa qualitativa, que foi realizada por meio de levantamento bibliográfico.

O levantamento bibliográfico tem por finalidade obter referências sobre determinado tema (CERVO; BERVIAN, 2002). Essas referências podem estar em diferentes formatos, como, por exemplo, artigos, livros, sites, revistas, vídeos, enfim, tudo o que possa contribuir para um primeiro contato com o objeto de estudo investigado.

Para o recorte deste estudo, utilizamos como critério de avaliação e seleção a busca por livros e artigos científicos. Para obter os artigos, utilizamos o Google Acadêmico, utilizando os seguintes indicadores: metodologias no ambiente construído + design de interiores; ergonomia no ambiente construído + design. A partir de um universo de artigos e da leitura de alguns resumos, fechamos a busca e optamos pelos artigos da autora Claudia Renata Mont’Alvão, que trata especificamente das metodologias no ambiente construído, tanto na área do design, como da arquitetura.

Para a organização desses artigos, utilizamos o software de acesso on-line, o webQDA, o qual destina-se a apoiar a investigação qualitativa, sobretudo, nas fases de organização e tratamento dos dados coletados (SouZa; SOUZA; COSTA, 2016; GODOI e SILVA; ALMEIDA, 2017).

Estes autores consideram que, apesar de apresentar-se de forma “vazia”, pode ser configurado de acordo com as necessidades do investigador. O programa não se direciona para um tipo específico de desenho de investigação, pois a sua organização baseia-se nos fundamentos da análise de conteúdo, mais especificamente na estrutura de conteúdo proposta por Bardin (2004): Organização da análise (pré-análise/exploração do material, primeiras inferências e interpretação); Codificação (tratamento do material para obter a melhor representação de seu conteúdo); Categorização (fornecer a representação simplificada dos dados); Inferência (sobre o que pode incidir esse tipo de interpretação).

A partir dessa estrutura de Bardin (2004), é importante compreender os elementos que organizam a lógica de funcionamento do webQDA, para orientar a organização dos dados deste estudo, considerando as três partes: Fontes, Codificação e Questionamento.

Para o recorte desse artigo, utilizamos as Fontes, a primeira ação do pesquisador com o webQDA. Essa área pode ser organizada de acordo com a necessidade do pesquisador, os tipos de documentos, ou a função de cada um (Souza; SOUZA; COSTA, 2016; GODOI e SILVA; ALMEIDA, 2017). Neste estudo, as fontes utilizadas e organizadas para a constituição dos materiais de análise foram os artigos selecionados previamente.

Antes de iniciarmos o trabalho com as Codificações, é necessária uma leitura atenta dos extratos dos dados, com vistas a criar a(s) temática(s), as dimensões, os indicadores, ou as categorias, sejam elas descritivas ou interpretativas (Souza; SOUZA; COSTA, 2016; GODOI e SILVA; ALMEIDA, 2017). Para este estudo, optou-se, inicialmente, por criar uma temática – Etapas das Metodologias de Ergonomia no Contexto do Ambiente Construído.

 

Etapas das Metodologias de Ergonomia no Contexto do Ambiente Construído

Conforme explicamos anteriormente, para a revisão de literatura, recorremos aos estudos sobre Ergonomia no Ambiente Construído, realizados por Moraes e Mont’Alvão (2007) e Mont’Alvão (2011) e a organização inicial, no software webQDA.

A partir desses estudos, constatamos que, no Brasil, há sete metodologias utilizadas na ergonomia do ambiente construído: avaliações pré-projeto (REIS, 2003); avaliações pós-ocupação (ORNSTEIN et al., 1995); relações ambiente/comportamento (ORNSTEIN et al., 1995); intervenção ergonomizadora (MORAES; MONT´ALVÃO, 2007); passeio acompanhado (DISCHINGER, 2000); análise ergonômica do trabalho (IIDA, 2005); ergonomia na relação entre o homem e o espaço construído (VILLAROUCO SANTOS, 2002); deslocamento monitorado (RIBEIRO, 2004).

As avaliações pré-projeto, de acordo com Reis (2003), compreendem o estudo e levantamento das necessidades dos usuários de determinado ambiente, antes do processo de implementação e utilização desse ambiente, “[…] e para isso faz uso de simulações, maquetes e modelos computadorizados” (MONT´ALVÃO, 2011, p. 17) e, até mesmo, da realidade virtual.

Avaliações pós-ocupação referem-se às que contemplam desde as questões mais básicas do projeto propriamente dito, como materiais e técnicas construtivas, até as questões relacionadas ao comportamento do usuário, passando também por questões técnicas, funcionais e econômicas (MONT´ALVÃO, 2011, p. 18). Todos esses dados, segundo Ornstein et al. (1995), podem retroalimentar todo o processo de avaliação de um ambiente construído.

A metodologia das relações ambiente/comportamento diz respeito às interações estabelecidas entre ambiente construído e comportamento do usuário inserido nesse ambiente (ORNSTEIN et al., 1995). O principal objetivo dessa metodologia, segundo Mont´Alvão (2011), reside em verificar como o ambiente afeta o comportamento do usuário e vice-versa.

A intervenção ergonomizadora, proposta por Moraes e Mont’Alvão (2007), estabelece seis etapas para o desenvolvimento de projetos ergonômicos: apreciação; diagnose; projetação; avaliação; detalhamento ergonômico, conforme explícito na Figura 1.

webQDA na Revisão de Literatura

Figura 1 – Intervenção ergonomizadora | Autor: Oliveira e Mont’Alvão (2015)

Essa metodologia apresenta uma abordagem metódica, com etapas e processos bem definidos. Mont´Alvão (2011) ressalta que, a partir dessa metodologia, foram introduzidos os conceitos da relação entre Design, Arquitetura e Ergonomia em nível de pós-graduação. Oliveira e Mont’Alvão (2015) ressaltam ainda que essa metodologia pode ser utilizada tanto em estudos de ergonomia corretiva como de ergonomia projetual.

O método do passeio acompanhado (DISCHINGER, 2000) promove uma percepção do espaço mais próxima ao usuário, ou seja, a partir de situações reais de uso dos espaços, no intuito de avaliar as condições de acessibilidade espacial desse usuário. A aplicação do método consiste em escolher um usuário e determinar um percurso relevante ao estudo. Esse percurso deve possuir objetivos claros e um ponto de partida. No decorrer do passeio, o avaliador deve apenas acompanhar o usuário nas atividades. Ao final, os eventos significativos são fotografados e analisados em mapas de percurso (MONT´ALVÃO, 2011).

A análise ergonômica do trabalho tem origem em uma escola francesa, que se confunde com a própria origem da Ergonomia. Segundo Iida (2005), desdobra-se em cinco etapas: análise da demanda; análise da tarefa; análise da atividade; diagnóstico; e recomendações. Essas cinco etapas estão descritas na Figura 2.

Figura 2 - Análise ergonômica do trabalho

Figura 2 – Análise ergonômica do trabalho | Autor: Oliveira e Mont’Alvão (2015)

Ao utilizar essa metodologia, o pesquisador apresenta os resultados encontrados por meio de documentos, como, por exemplo, laudo ergonômico, relatório de intervenção e/ou caderno de especificações (VIDAL, 2003).

A metodologia da ergonomia na relação entre o homem e o espaço construído, proposta por Villarouco Santos (2008), foi estruturada em seis etapas, divididas em dois blocos. O primeiro bloco trata das análises físicas do ambiente composto por três etapas (análise global do ambiente; identificação da configuração ambiental; avaliação do ambiente em uso). O segundo bloco refere-se às análises cognitivas (percepção ambiental; diagnóstico ergonômico do ambiente; proposições ergonômicas para o ambiente).

Figura 3 - Método de análise do ambiente construído

Figura 3 – Método de análise do ambiente construído | Autor: Oliveira e Mont’Alvão (2015)

Oliveira e Mont’Alvão (2015) destacam que esse método exige a visão global do pesquisador, ou seja, desde a primeira fase até a última são colocadas as propostas de melhoria para a situação avaliada.

De acordo com Mont´Alvão (2011), a metodologia do deslocamento monitorado surgiu a partir de outra metodologia, o passeio acompanhado. Ou seja, Ribeiro (2004) propôs a observação do comportamento do usuário dentro do ambiente, em outras palavras, “[…] observa com cuidado sem interação com o elemento observado” (p. 84).

 

Considerações finais

A área da Ergonomia apresenta uma história recente e em constante evolução, por isso é fundamental e relevante pesquisas sobre os processos metodológicos para o desenvolvimento e ampliação na área do Design de Interiores.

Após o levantamento bibliográfico e elaborada a síntese geral das metodologias utilizadas nos estudos de ergonomia do ambiente construído, a partir da utilização do software webQDA, amplia-se a reflexão sobre o longo caminho ainda a ser percorrido.

O uso do webQDA trouxe contribuições ao desenvolvimento inicial dessa pesquisa. O maior ganho obtido, até o momento, foi conseguir organizar os dados da pesquisa e levantar a construção de uma temática.

Diante desse primeiro olhar, foi possível, no decorrer dos estudos, constatar que “[…] a ergonomia ainda é aplicada nos estudos do ambiente construído de forma tímida” (MONT´ALVÃO, 2011, p. 22).

Fazer uso da Ergonomia por meio das metodologias apresentadas contribui de maneira significativa e enriquecedora para os projetos desenvolvidos na área do Design de Interiores, no sentido de enaltecer, qualificar e solucionar aspectos relacionados à harmonização dos ambientes.

Por fim, acredita-se que, por meio de pesquisas e a ampliação da abordagem sobre essas metodologias, seja possível propor projetos que estabeleçam um equilíbrio na realização de tarefas, tendo em vista as necessidades dos usuários.

 

Referências

Bardin, L. Análise de conteúdo. Lisboa: Edições 70, 2004.

BRASIL. Ministério da Educação. Catálogo Nacional de Cursos Tecnológicos 2016.. Disponível em: <http://portal.mec.gov.br/index.php?option=com_docman&view=download&alias=44501-cncst-2016-3edc-pdf&category_slug=junho-2016-pdf&Itemid=30192>. Acesso em: 30  maio  2017.

CERVO, A. L.; BERVIAN, P. A. Metodologia científica. 5. ed. São Paulo: Prentice Hall, 2002.

DISCHINGER, M. Designing for all senses: acessible spaces for visually impaired citizens. Department os Space and Process, School of Architecture, Chalmers University of Technology. Götebor, Suécia, 2000.

GODOI e SILVA, K. A.; ALMEIDA, M. E. B. Combined Use of Software that Supports Research and Qualitative Data Analysis: Potential Applications for Researches in Education. In: Costa, A.; Reis, L.; Neri de Sousa, F.; Moreira, A.; Lamas, D. (eds). Computer Supported Qualitative Research. Studies in Systems, Decision and Control, vol 71. Springer, Cham.

GUERIN, D. A.; THOMPSON, J. A. A. Interior design education in the 21st century: an educational transformation. Journal of Interior Design, v. 30, n. 2, p. 1-12, 2008.

IIDA, I. Ergonomia projeto e produção. 2. ed. São Paulo: Blucher, 2005.

MONT´ALVÃO, C. R. A ergonomia do ambiente construído no Brasil. In: ______; VILAROUCO SANTOS, V. (Orgs.). Um novo olhar para o projeto: a ergonomia no ambiente construído. Teresópolis, RJ: 2AB, 2001.

MORAES, A. (Org.). Ergodesign do ambiente construído e habitado. Rio de Janeiro: iUsEr. 2004.

______; MONT’ALVÃO, C. Ergonomia: conceitos e aplicações. 3. ed., Rio de Janeiro: 2AB, 2007.

OLIVEIRA, G. R.; MONT´ALVÃO, C. R. Metodologias utilizadas nos estudos de ergonomia do ambiente construído e uma proposta de modelagem para projetos de design de interiores. Estudos em Design. Rio de Janeiro, v. 23, n. 3, 2015, p. 150-165.

ORNSTEIN, S. W., BRUNA, G., ROMÉRIO, M. Ambiente construído e comportamento: a avaliação pós-ocupação e a qualidade ambiental. São Paulo: Studio Nobel/ FAU-USP/ Fupam, 1995.

REIS, T. C. Contribuição da ergonomia nos processos de concepção de espaços de trabalho. Dissertação (Mestrado)- Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Artes e Design, Rio de Janeiro, 2003.

RIBEIRO, L. G.; MONT´ALVÃO, C. R. Ergonomia no ambiente construído: um estudo de caso em aeroportos. Dissertação (Mestrado)- Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Departamento de Artes e Design, Rio de Janeiro, 2004.

SOUZA, F. N.; SOUZA, D. N. DE; COSTA, A. P. Asking Questions in the Qualitative Research Context. The Qualitative Report, v. 21, n. 13, p. 6–18, 2016.

VILAROUCO SANTOS, V. Ergonomia do ambiente construído. ERGODESIGN. II Congresso Internacional de Ergonomia e Usabilidade de Interfaces Humano – Tecnologia: Produtos, Programas, Informação, Ambiente Construído, 2002, Rio de Janeiro, RJ. Anais…. Rio de Janeiro, RJ: LEUI – Depto. de Artes e Design – PUC-RIO, 2002.

______. Construindo uma metodologia de avaliação ergonômica do ambiente – AVEA. 14º CONGRESSO BRASILEIRO DE ERGONOMIA. Anais… Porto Seguro: Abergo, 2008.

DEIXE UM COMENTÁRIO